Manel Cruz responde aos leitores da BLITZ

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Manel Cruz responde aos leitores da BLITZ

Mensagem  PapaNJam em Sab Out 04, 2008 5:45 am

BLITZ levou as dúvidas mais pertinentes dos leitores do BLITZ até Manel Cruz, que respondeu com toda a paciência. Satisfaça aqui a sua curiosidade.

Os leitores da BLITZ perguntaram, Manel Cruz respondeu.

O autor do disco-livro O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu que Estraguei , lançado este ano e assinado como Foge Foge Bandido, satisfaz aqui a curiosidade dos leitores da BLITZ, respondendo às perguntas que seleccionámos dentre as muitas propostas pelos utilizadores .

A extensa sessão de perguntas e respostas que se segue não dispensa, como é natural, a leitura da entrevista a Manel Cruz, brevemente na revista BLITZ.

RobertNaja
Qual é a sensação de veres que um álbum que podia ser um marco da música portuguesa é lançado em edições limitadas e pouco divulgado? Não sentes alguma frustração por um álbum tão bom (e que te deve ter dado enorme prazer) ter chegado a um número limitado de ouvintes, correndo o risco de "passar ao lado da História"?
A primeira edição foi limitada mas vai haver mais. Houve o equívoco de que era uma edição única - como era edição limitada, alguém interpretou "limitada" como "acabou", mas não acabou.

Quanto ao passar ao lado da História, eu percebo isso e dentro de um determinado contexto, prático e quotidiano, é possível. Agora, eu sinto que a História é [apenas] uma história...

É engraçado porque, que no Bandido, aconteceu muita vez aparecer história com "H" grande e com "h" pequeno. E acabei por optar por pôr tudo com "H" grande. Podia optar por pôr tudo com "h" pequeno, dizendo que a História mundial é apenas uma historinha, ou pôr tudo com "H" grande, dizendo que as nossas historinhas podem ser a História.

Nesse sentido, o rapaz que escreveu isso tem a sua história e não vai passar ao lado da história dele, nem de muitos. Se calhar vai passar ao lado da História das enciclopédias. Isso a mim não me assusta.

Eu gostava que este fosse um disco que existisse sempre, que de uma maneira ou outra estivesse sempre disponível para as pessoas comprarem e poderem ouvir a qualquer altura. Não acho que seja uma coisa que viva de um momento ou de uma moda. Acho que é um disco que, daqui a 10 anos, alguém pode conhecer e gostar.

Rickglp
Como bandido, quais são os teus lugares preferidos para fugas?

Casa, é o lugar por excelência. Adoro a minha casinha e sinto-me mesmo bem lá. Sala de ensaios, o meu estúdio... Acho que é por aí.

Riot_Act
Após este bem sucedido O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu Que Estraguei , passa-te pela cabeça fazer outra coisa semelhante ou algo totalmente diferente deste formato álbum/livro?

Agrada-me a cena do objecto. Eu gosto de brincar com essas coisas e sei que, se me surgir uma oportunidade, eu vou inventar alguma coisa. Se se faz um disco e há a oportunidade de ter um livro a acompanhar, não interessa se vai ser com fotografias ou outra coisa, interessa-me é a oportunidade de construir alguma coisa.

Com a venda pela Internet e as piratarias, acaba por ser aliciante a ideia de teres um objecto, algo original e único. Sou um fetichista (risos). Compro montes de gravadores de cassetes e não preciso deles todos... Há uma série de inutilidades que fazem parte do nosso fetichismo e que são importantes.

Uma pessoa que gosta de comprar discos ou vinis não é antiquada nem esquisita, é só como uma pessoa que gosta de mozarella. Não tem de haver uma lógica nessas coisas: a Internet não veio matar o objecto, acho que isso é profundamente mentira e acredito que as coisas ainda vão regredir outra vez, ou andar para outro lado.

Se calhar as cassetes podem aparecer outra vez, se calhar não vão desaparecer os cartuchos, ou vai aparecer outra coisa. O próprio iPod é um objecto. Uma pessoa mete-lhe um autocolante do Hello Kitty ou pinta-o todo de azul, mas continuas a ter um objecto. O teu portátil ou está limpinho ou cheio de autocolantes, ou tens as tuas pastinhas com fotos...

Acho que um gajo gosta sempre de objectos. Daí eu achar que um próximo trabalho meu ou vai ser o mais sintético e simples possível, ou a cena mais completa possível. O máximo de sentidos que um gajo consiga despertar, melhor!

Capitão Romance
Desde Ornatos Violeta que a exposição mediática dos teus projectos tem vindo a decrescer. É uma evolução propositada?

Eu não posso dizer que seja famoso, embora tudo seja relativo: sou famoso em minha casa (risos). Mas falando da fama do ponto de vista mais prático, acho que tenho uma fama relativa dentro do meio da música e de algumas pessoas que gostam do que eu faço, mas já consegui provar um bocadinho do que seria isso, o suficiente para me precaver.

Sempre observei o mundo à minha volta e percebi o preço da fama. Ainda por cima já estava muito avisado, no sentido de que todos nós temos ambições, muitos de nós somos vaidosos - eu sou vaidoso - , todos nós temos os nossos convencimentos, mas há um raciocínio intelectual que podemos ter de forma a fazermos só aquelas coisas com as quais nos identificamos.

Às vezes, por essas ambições ou vaidades, não digo que vendas a alma ao Diabo mas alugas! E o Diabo no fundo é a nossa consciência. Ninguém mais nos vai dizer se está mal ou não.

Eu fiz um ou dois playbacks, um no Júlio Isidro e outro já não sei onde, e detestei. Não vou dizer que não faço playbacks porque é uma cena pura... Eu não gosto, acho pobre, mas é a minha opinião e respeito quem faça. Para mim [as pessoas que fazem playback] estão, de alguma maneira, a enganar as outras pessoas, mas como toda a gente sabe [que é playback] e diz lá, é como o wrestling. Eu não me identifico, como tal não gosto de fazer.

Se vais fazer playbacks, à partida vais poder aparecer em tudo o que é programa de televisão. Mas um programa que tenha playbacks não é um programa para ter música, é porque não tem infra-estruturas. Portanto, se eu não fizer playbacks estou logo a excluir uma série de coisas.

Também sabia que se aparecesse na televisão muito tempo, havia muita gente a levar comigo, e muitas delas nem gostavam do que eu fazia... Muitas delas, não gostando, de tanto levar comigo iam passar a gostar. Se calhar iam começar a reconhecer-me na rua, [coisa] que eu tive na altura dos Ornatos, um bocadinho.

Volta e meia reconheciam-me. Raramente era bom, porque se havia pessoas que vinham falar comigo e eu via que havia um interesse genuíno, um "tu cá tu lá" de pessoa normal, muitas das vezes era super embaraçoso. Não quer dizer que fosse por mal, mas dás por ti a falar com uma pessoa que não está a olhar para ti de forma normal, que te coloca numa posição esquisita.

A questão da fama é essa: permites isto e isto e isto e depois não sais assim [estala os dedos] dessas coisas. Foi um alerta que eu tive... ia dizer graças a Deus, mas não foi graças a Deus, nem só a mim, mas graças à educação que tive. Um alerta numa altura em que isso não era tão claro, e que me permitiu fazer um certo finca-pé.

Agora fico mesmo contente por ter tomado as atitudes que tomei, porque passeio na rua e ninguém me conhece. As pessoas olham para mim se sou simpático, se estou mal-disposto não olham, e não vêm ter comigo porque me viram no programa da tarde.

Rock Rendez Vous
O tema "Eleva!" é hilariante. Como encontraste a pérola daquele pregador brasileiro?

Numa altura em que eu estava muito numa de sacar sonzinhos, estava a dar na televisão um bispo a falar, num palco com montes de gente. E com um discurso incrível, virtuoso; ainda para mais não era um discurso beato, só lhe faltava dizer "just do it!". Eu pus logo a gravar e foi aí que tive a ideia de pôr aquilo por cima do instrumental.

Experimentei por cima de várias músicas do Bandido - algumas ainda eram só experimentais - e gostei sobretudo daquela porque tinha aquele lado gingão. Tal como na do meu pai ["O Canto dos Homens-Conto", que tem o pai de Manel Cruz a declamar um poema], [colei] e ficou logo bem.

O discurso era extensíssimo, tinha uns 20 minutos, e eu tive de cortar. A certa altura tive de começar a manipular o discurso também. Ele dizia muitas coisas separadas que eu ia juntando... Foi um processo evolutivo.

Anfilofio
De onde vem esse sentimento todo nas tuas letras? São todas inspiradas em relações na tua vida?

Acaba por ser, porque mesmo as vidas dos outros acabam por ser filtradas. É impossível termos a ambição de nos distanciarmos dos outros, é uma batalha perdida falarmos só da nossa vida.

Mas também há muitas reflexões. Nem sempre tenho a preocupação da coerência, há textos que eu pura e simplesmente [junto à música] e não estou preocupado se vai fazer sentido, porque sei que, de alguma maneira, vai fazer um sentido.

Isso foi uma coisa engraçada no Bandido, o acaso. As coisas que eu deitava à sorte, normalmente acabavam sempre por fazer um certo sentido, e as coisas que eu gravava propositadamente tinha de andar lá a esgravatar, à procura de sentido.

Acaba por ser sempre o exterior a vir pelo funil e a deitar cá para fora. É uma coisa que a gente pensa que domina mas não domina assim tanto.

PieceOfHeaven
És quem querias ser? [trocadilho com "Ninguém é Quem Queria Ser", uma das músicas do Foge Foge Bandido]

Acho que não (risos). Não sou quem queria ser, como a música o diz, mas neste momento gosto de quem sou.

Useless
Quanto teria de desembolsar para os senhores Ornatos tocarem na minha festa (família mais uns quantos amigos)? Se não houver possibilidade de actuarem, será que ao menos podem enviar-me uma cópia daquele material raro que está para sair em CD (tenham atenção que já andam uns tipos a querer vender álbuns em cartões MicroSD) desde 2003?
Dois milhões de euros, não sei se ele tem (risos). Isso movia tanto as nossas vidas e as vidas de tanta gente, para uma noite da vida deles - que eu sei que é importante - que é quase impossível.

As músicas que a gente tem estão todas editadas, a não ser as captadas ao vivo. Devem circular aí umas músicas captadas ao vivo, quando ainda nem era eu a cantar. Mas de resto está tudo editado, desde os discos às colectâneas, Tejo Beat , Free Som , uma cena francesa... Se houver algum problema tem mais a ver com as editoras e os direitos de autor.

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