Indústria fonográfica: crise ou necessidade de transformação?-Capit.3

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Indústria fonográfica: crise ou necessidade de transformação?-Capit.3

Mensagem  PapaNJam em Sab Jul 05, 2008 12:39 pm

Foi tudo muito rápido para muita gente sequer notar ou entender como aconteceu. Muitos apenas se lembram de, repentinamente, começarem a ver CD’s de seus artistas favoritos em bancas de camelô e pequenas lojas espalhadas por todos os lados, vendidos a preços muito mais acessíveis do que o dos CD’s oficiais, produzidos pelas gravadoras. Como combater €5,00 ou € 6,00 quando se vende normalmente a € 20,00 ou até € 30,00? Uma guerra quase impossível de ser vencida... E, mais uma vez, os culpados por trás de tudo eram eles, os grandes vilões que atazanavam os velhuscos conglomerados da comunicação, a TV e as gravadoras: a Internet e seus computadores. O que aparente seria um simples aparato de armazenamento de arquivos em grande escala, provocado pelo sempre crescente fluxo de informações nas máquinas e na rede, logo provou receptar bem também músicas e videogames, transformando a gravação de CD’s em uma das atividades mais espúrias dos últimos anos. Espúrias – ouvi bem? A disseminação de tal “hobby” já chegou ao ponto de gravadores de CD serem vendidos a ofertas sensacionais nas principais casas do ramo, e a preços bastante acessíveis na própria Internet, nos anúncios de diversos sites especializados. O que parece incomodar mesmo a indústria fonográfica e suas grandes gravadoras e artistas indignados é a modalidade lucrativa desse ato: as pequenas empresas que produzem em larga escala a partir de matrizes excelentes (às vezes, escamoteadas do seio das próprias gravadoras) para um comércio maciço. Não só brasileiras, mas a maioria delas, aliás, tailandesas e chinesas.

Talvez fosse só isso: os CD’s piratas, o combate ao comércio deles nas ruas e às numerosas gangues que os produzem, e tudo estaria bem. Mas não parou por aí, e a agonia do grande sistema fonográfico, como o conhecíamos, tem início, causando a falência de gravadoras de renome e a perda do lucro de seus contratados. Como se não bastasse, mais uma vez, aquela vilã das instituições centenárias da comunicação – sim, ela, a democrática (pero no mucho) Internet – estimulou o desenvolvimento de uma nova forma de arquivo que pudesse ser trocado, puxado, a velocidades maiores, e de forma mais ágil. Do ancestral formato de arquivo musical WAV, que se conhecia desde a época do Windows 3.1, chegamos a formas mais comprimidas e dinâmicas como o WMA e o popularíssimo MP3, e pronto: agora as músicas de seus artistas favoritos trafega por fibra ótica a centenas de kilobytes por segundo, e você já pode não só gravar os seus próprios CD’s como deixar as suas músicas preferidas no próprio computador, ou transferi-las para o som do carro, ouvi-las no seu aparelho de DVD... o inferno para as gravadoras. Afinal, a redenção da gratuitade musical chegou: música para todos os gostos, de graça e democrática, livre de quaisquer pacotes obrigatórios como a seleção que o artista grava sob o nome de “álbum” (um conceito já ultrapassado) ou preços. Há ainda (e haverão sempre, como os colecionadores de vinil) os apaixonados pelos discos, suas capas e todos os conceitos de arte que a embalagem e a contenção física da música criaram, ao longo dos anos, e que continuarão amantes dos discos e CD’s produzidos pelas gravadoras, com selos, fotos, logotipos, fichas técnicas, letras e tudo o mais que eles trazem consigo. Vejo-os, entretanto, como um grupo restrito, museólogos, bastante reduzido com o advento das novas gerações.


Contra tudo o que aconteceu, a revolta dos ricaços da mídia musical foi obviamente grande. Numerosa. Não só no âmbito da dita música popular, “de povão” mesmo como em outras formas. E aí o rock entra. Muita gente faz vista grossa, como Iron Maiden e Foo Fighters. Outros, no entanto, apelam pra valer: Metallica, Madonna e Bon Jovi (com seus CD’s acompanhados de DVD, video-clipe e o escambau competindo com a pirataria) são só alguns da imensa lista de artistas que se uniram à vergonhosa e antiquada campanha de combate ao Napster (principal programa de troca de músicas pela Internet até 2001) nos EUA, que resultou em sua posterior “conversão” ao jogo de regras impostas pelas gravadoras (paga-se para puxar a música). Luta inglória: se o Napster morreu, Morpheus e Kazaa lhe substituíram, e se estes também morrerem, outros mais virão. A Internet, como uma caracterização virtual do próprio mundo real, acabou assumindo conceitos evolutivos bastante apurados no sentido de que, se algo não sobrevive às mudanças do meio, alguma outra coisa que pode habitar bem o seu nicho sobrevém, desenvolve-se admiravelmente, e toma-lhe o lugar. Como dito anteriormente, eis uma guerra quase impossível de ser ganha pelas gravadoras.
Além de tudo isso, principalmente em países de economia injusta, como o Brasil, é muito difícil justificar-se estilos de vida luxuosos e nababescos de artistas musicais como os citados logo acima, que se empenham em manter um status quo já superado, comprando CD’s de R$ 30,00 que são vendidos na porta de sua casa por R$ 6,00. A elite musical luta contra o fenômeno social da pirataria olhando para os seus próprios umbigos, alegando pagamento de contas de bandas e músicos contratados, e gastos com shows e turnês, mas o volumoso aparecimento na mídia de fotos suas em mansões e resorts suntuosos e em viagens e festas milionárias rivaliza com o que dizem. Arautos da luta contra a pirataria, como Zezé di Camargo & Luciano, que o digam! Todos os artistas que apregoam a revolta contra a liberdade da distribuição da música – uma forma de arte livre por natureza; inclusive, das amarras físicas – são aqueles que ascenderam até o período do final do século passado, década de 1990, e já fizeram as suas riquezas com um tipo de comércio que parece, agora, fadado à morte gradual. A música, finalmente, ganha o status de liberdade e integração à vida que sempre lhe pareceu inerente! Acredito que, a partir do momento em que novas tecnologias que permitam o trânsito e armazenamento de arquivos musicais do mundo virtual de uma maneira bem mais ampla forem desenvolvidas e lançadas, o CD ou qualquer outra mídia que contenha as músicas deverão, lentamente, desaparecer. Em um futuro não muito distante, onde tudo se conecta ou se interliga, você recebe as músicas que você quer e as guarda, em seu aparelho celular ou no som de seu veículo, diretamente da Internet, ou liga o seu celular ao seu aparelho de som e ouve os últimos sucessos do momento em MP3 ou em outra forma digital ainda mais ágil e apurada – tudo pela web mesmo. As rádios não acabaram – apenas se adaptaram à nova realidade, assim como a TV, e são também simbióticas à Internet, mesclando-se ao mundo virtual. A música, afinal, flui livremente pelas ondas e cabos de todo o mundo, e para ouvi-la, não compre nenhum disco ou artefato de contenção físico – apenas conecte-se. A música está por aí, rondando livre pelo mundo fora. E como parte do mundo virtual, ela é muito mais livre e abstrata do que o simples e concreto pedaço de plástico chamado CD. Está em todo lugar. De repente, ela faz parte do ar que você respira.
Difícil concebê-lo para quem ainda está preso aos velhos padrões de distribuição de música impostos pela indústria fonográfica de décadas atrás, não? Mas já está acontecendo – basta prestar atenção. E isso tudo quer dizer, afinal, que não se pode mais render algum dinheiro com esse negócio de música, então? O destino da música então é esse, ser produzida como lazer e sem nenhum fim lucrativo, para o consumo virtual mundial? Obviamente, não.
Winamp: um dos mais populares softwares de MP3
Todos os sistemas desenvolvem-se, e crescem. Passam por mudanças e adaptações. Os conglomerados que hoje conhecemos como gravadoras e indústrias de discos também já estão no caminho para uma grande adaptação, mesmo que não muito clara ou consciente disso. Tateando no escuro, simplesmente encontra-se o caminho, e inevitavelmente acontecerá. O que não se pode fazer é insistir em um sistema vetusto que já está moribundo na UTI da história comercial – como as elites de músicos do porte de um Metallica ou Gilberto Gil insistem. O destino da música aponta, cada vez mais, para a sua liberdade em um mundo virtual. O modo de render com ela deverá consistir, portanto, não em seu aprisionamento em CD’s ou MD’s para distribuição ao público, mas em como administrar a sua produção e distribuição no próprio “admirável mundo novo virtual”, que cresce inexoravelmente.Metallica
Após a exposição de determinados artistas em portais e sites através de singles virtuais, promovida pelas gravadoras em golpes de marketing, até mesmo gratuitamente (e que, em outros casos, apenas determinará uma transição do negócio do “jabá” para a web – acredite, todos os sistemas se adaptam), aqueles com maior aceitação pública ou sucesso não mais terão seus últimos projetos lançados em CD, mas sim, em pacotes virtuais de imagem e som que incluirão todas as mídias: design de arte do projeto (substituindo as velhas “capas de disco”), letras, videoclips etc., enfim, tudo que hoje em dia você vê espalhados em CD’s / DVD’s / home pages. Claro que, correndo por fora (e esse continuará sendo um dos grandes atrativos do mundo virtual, sempre mais aberto e receptivo do que as rádios ou a TV), ainda estarão os independentes, entupindo milhões de sites por dia com as suas propostas e sons anti-mainstream. A indústria de discos do futuro interagirá, portanto, num ambiente virtual que em muito lembrará as rádios e o próprio mercado fonográfico da atualidade, mas com regras novas impostas pelo próprio público, que terá uma gama de variadas opções e estilos muito mais acessível, e com uma vantagem: terá toda a música, pelo menos aparentemente, de graça! O custo das gravadoras e seus artistas deverá ser coberto, na verdade, pelas suas transações com sites e portais de distribuição de música, através dos quais irá também realizar os lançamentos dos “projetos” de seus astros (que substituirão os discos). Os programas de compartilhamento de músicas entre usuários e arquivos livres e gratuitos na rede deverão continuar existindo, mas quem quiser as últimas novidades, os projetos completos de um artista e as coisas mais “quentes” do momento e com garantia de qualidade absoluta, antes que caiam no grande consumo público virtual, deverá, obviamente, buscar nos sites e portais que mantenham contratos com as grandes gravadoras – ou patrocinados por elas mesmas. Estes sim serão as grandes fontes de lucro das gravadoras no futuro, points especializados inacessíveis senão por senha, graças a arrojados sistemas de segurança, que centralizarão todo o comércio de música com os “clientes primários” (rádios, outros sites ou mesmo usuários dispostos a pagar), vendendo em primeiríssima mão os sons e projetos dos artistas, antes deles caírem na dita “distribuição livre” da Internet. Já estamos presenciando, atualmente, os primeiros pop stars da era virtual, que estão ganhando popularidade e têm os seus primeiros sucessos catapultados graças a um fenomenal desempenho na net. Isso é só o começo do novo sistema.A perspectiva de lucro com a música, portanto, é totalmente diferente, mas, dependendo do jeito como a distribuição for administrada, pode ser tão rentável e gratificante quanto. Talvez, não seja um lucro tão rápido e fulminante quanto aquele que o mercado musical já experimentou um dia: 300.000 discos vendidos por hora, um milhão de cópias em poucos minutos etc. Provavelmente, todos estes índices são como aqueles 100% no Ibope das novelas da Globo – estatísticas que nunca mais serão atingidas, pois eu já disse: a pirataria e a Internet estão derrubando tudo isto por terra. Talvez, a longo prazo e com certa perspicácia, possa ser um lucro muito admirável, sim. Mas talvez possa ser, também, um lucro ainda mais rápido e fulminante, pois lembremo-nos: a grande população virtual está apenas crescendo, cada vez mais, a cada dia que passa, e não os meros compradores de discos oficiais das gravadoras, cada vez mais escassos – mais uma vez, é aquela velha estória, “pra quê pagar muito se eu posso ter por metade ou até mesmo de graça”? Esta grande população virtual é que representará o mercado do futuro, um mercado que não mais será atingido diretamente, mas indiretamente, determinando o gosto popular que encarece ou não a obra de um artista a ser distribuída para rádios virtuais, sites e pages de música.Muitos novos tipos de serviço e contrato surgirão a partir deste novo cenário – mas as gravadoras mais antenadas devem já, a partir de agora, irem pensando em como será realizada a transição, pois o pioneirismo nela determinará em quem estará na dianteira do mundo musical do futuro. Há grandes chances, por exemplo, das menores (as ditas independentes) chegarem lá antes das majors da atualidade, pois muitas já têm uma visão mais clara desse futuro e já começam a desenvolver projetos de distribuição de música exclusivamente via net. O caminho para elas, que já estão mexendo diretamente com a coisa, está, por assim dizer, mais pavimentado.Dito tudo isto, entretanto, tenho que confessar uma coisa: admito que sou um daqueles admiradores de vinil, o velho LP, que citei há alguns parágrafos. E já começo, também, a sentir saudades dos trabalhos de capa e concepções do bom e velho CD também. Ainda me lembro de quando garimpava lojas atrás dos álbuns – em vinil! – do Metallica (quem diria! - aquele verdadeiro, ainda com Cliff Burton). Arrumava velharias do Led Zeppelin e do David Bowie e ficava viajando nas capas. Após o advento do CD, frequentava importadoras e sebos à caça de raridades, e me maravilhava com aqueles disquinhos prateados de um Nektar ou um MC5. Mas quando olho à minha frente e vejo, hoje em dia, a facilidade com que “baixo” a música de qualquer um deles, de qualquer canto do mundo, fico bobo, percebo o futuro, e digo a mim mesmo: “uau, que facilidade!”. E sem ser depenado no bolso!

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