Festival Músicas do Mundo - reportagem 5ª feira, 24.07

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Festival Músicas do Mundo - reportagem 5ª feira, 24.07

Mensagem  PapaNJam em Sex Jul 25, 2008 10:56 pm

Noite de dança, fusões e diálogos culturais ao oitavo dia do FMM em Sines.

À décima edição do FMM já ninguém duvida dos insondáveis caminhos da música. Ainda assim vale a pena passar por cá só para fazer o teste: de dia pacata vila do litoral alentejano, à noite capital de um mundo maior, Sines já cedeu a alma aos diálogos da world music.

Fim de tarde solarengo na bonita enseada de Sines, porto de pesca balizado por dois pontões que a separam do Atlântico; gente na praia, nómadas, malabaristas, hippies do nosso tempo e outros visitantes, turistas, autóctones. É o oitavo dia de um cartaz também ele itinerante, de Porto Covo a Sines, e na vila, do Centro de Artes, intervenção moderna na zona histórica, ao castelo e à praia. Talvez por isso, tudo surja naturalmente - sentimo-nos parte do conceito mais do que espectadores.



Sem vedetismos e secretismos, o check-sound confunde-se com a actuação, merece palmas. É assim que começa a actuação dos Mandrágora , passa pouco das 19h30. O quinteto portuense dá a conhecer o último álbum Escarpa e traz amigos, uma voz poderosa luso-francesa, Simone Alves, o hipnotizante clarinetista francês Guillaume Guern e aquele a quem chamam mestre, o violinista Jacky Molard, com quem estiveram em Abril duas semanas na Bretanha, a dar "reviravoltas" nos temas dos dois trabalhos já editados.

São eles quem conta isto tudo, indiferentes ao espaço ser palco e não mesa de café, um à vontade tão grande que contrasta com o som telúrico, com laivos celtas impressos a violino, percussões, instrumentos melódicos como a moraharpa, um antigo instrumento de cordas, flauta ou a gaita-de-foles, a ecoar pôr-do-sol adentro.

Com o nome assente na lendária raiz de forma humana, tão fascinante quanto mortal, os Mandrágora criam em palco bandas sonoras perfeitas para feitiços, lendas e danças de roda e o público faz do instrumental e das cantigas de amigo, evocadas na voz grave e absorvente de Simone Alves, motivo de um folclore moderno e descontraído. Com o percussionista a sentir-se mal, o espectáculo é interrompido, continua mas acaba por terminar mais cedo, com um até breve saudado com palmas de compreensão.



Rumo ao castelo, pelo centro histórico, passa-se as barraquinhas de roupas coloridas e um curioso patinho cura asma, artesanato do mundo, como seria de esperar, em abundância e para todos os gostos.

Pelas 21h30 entram em palco os Marful , para apresentar o seu pitoresco Salón de Baile , disco de estreia em 2006, que evoca os cenários avant-garde da música cantada a jeito de cabaret nos salões de baile galegos de cidades como Vigo, Corunha e Santiago de Compostela. Um planeta à parte, fez questão de frisar a arrebatadora Ugia Pedreira, a voz do quarteto vindo de uma Galiza a nordeste de Espanha mas que "não é Espanha" e a norte de Portugal, "mas que não é Portugal".



O espectáculo provocante, com um tango dançado fervorosamente por dois machos latinos, apontamentos de dança contemporânea e um bailarino capaz dos movimentos mais frenéticos, fez da arena muralhada palco de uma desibinição transbordante e sensual.

Ugia, no meio de luzes roxas, fumo e uma moldura jazzística composta por um acordeão de dois tons e um clarinete baixo, preencheu a vocalismos quentes e expressivos temas como "Café Bacalhau" (com o fascínio que exerce para qualquer estrangeiro ouvir o português pronunciar "bacalhau"), uma melodiosa "Maria Ninguen", com fado na essência e "Je suis comme suis", cantada à cave perniciosa de Paris. A prestação valeu-lhes, a ela e ao cúmplice conjunto, a exigência do primeiro encore da noite e o prémio para melhor surpresa.



Poucos minutos depois, intervalos que no FMM têm a delicadeza de apresentar o artista seguinte, de onde vem e para onde se espera que vá, entram em palco Gerald Toto, Richard Bona e Lokua Kanza, projecto multi-origem de nome Toto Bona Lokua , nascido a improviso e experimentação em 2004, num estúdio de Paris.

Em palco, Lokua nascido no Congo, sorriso simpático, o único a palmilhar o idioma nacional, e recursos vocais comparados a Bobby McFerrin, Bona, camaronês com estilo rocker e multi-instrumentalista e o jovial (e encantador) Toto, voz oriunda da cosmopolita Martinica, tão capaz de sussurros como de rebentar, suavemente, com as ondas da praia no sopé do castelo, formam um trio cativante, mistura de raízes africanas com jazz, funk e muita alma.

Com a audiência embebida na onda cosmopolita, o recinto transformou-se em clube caribenho ao ar livre e vibrou. O último tema, "Lisanga", com assobios e vocalismos primitivos fundidos a pop, entoados por toda a gente, foi lição a reter: A música é um prazer universal.



Passado o testemunho aos veteranos, a senegalesa Orchestra Baobab toma o palco e por lá teria ficado o resto da noite. Maracas, tambores, congas, saxofones e dança crescem em música e ritmo com tanta facilidade que o tempo chega para jogos de vozes e dança africana numa celebração mescla de cor, som e diversão.

Dignos do elogio, há definitivamente coisas que não são para quem pode mas para quem sabe. Depois de um hiato de quase 20 anos, a orquestra com nome alusivo ao embondeiro, árvore típica do Senegal e símbolo da resistência africana, regressou já no novo milénio com o know-how do passado e vontade de marcar o futuro.

Ontem à noite percorreram os temas de Made in Dakar, editado em 2007, mestria capaz de conjugar cha-cha-cha, rumba, salsa, reggae, guitarradas e batuques, coros melodiosos e sonhadores, ao jeito dos clubes da América Latina.

Estar em Sines a ouvir uma banda do Senegal e apetecer perguntar onde é que estão as barraquinhas de mojitos e cubas libres é no mínimo, pela persistência e contributo dado à história da música dita do mundo, digno de louvor. Com duelos entre a guitarra e o saxofone, solos instrumentais de compenetração jazzística e aquele jeito nato para a dança que sobrevive no corpo de um africano independentemente da idade, melhor ainda.



Finda a noite no castelo, a música tornou ao palco da praia, onde muita gente estava pronta para tirar o pé do chão ao som do nordestino Silvério Pessoa . O brasileiro que à tarde contava, aos poucos que compareceram às "Conversas com o artista" - iniciativa que pretende juntar músicos e público numa discussão informal sobre o seu trabalho - que a música deve ser consequência, apresentou pela primeira vez em Portugal o seu forró eléctrico, um híbrido de electrónica com melodias antigas, dos trabalhadores dos canaviais em que cresceu e letras divertidas.

Entusiasmado pelo facto de a audiência falar a mesma língua, Silvério arrancou do público o refrão mais sui generis da noite (depois do "bacalhau" dos Morful), "Oh compadri, oh comadri... eu cheguei prá diversão!", iniciando-se numa dança esfusiante, forrobodó contagiador de toda a marginal.

Pouco atreito a multiplicar simplesmente as tradições, o músico de Pernambuco, 46 anos, saltou durante uma hora sob efeitos de luz incandescentes, viola de 10 cordas, guitarra eléctrica e samples, tecnologia que, diz ele, o aproxima da "moçada" cativada ontem à noite e mostra uma nova geração de música brasileira, independente e com mensagens marcadamente urbanas e sociais.



A fechar a noite, a Toubab Krewe , cinco jovens norte-americanos que nos últimos anos andaram a captar as sonoridades de países como o Mali, Guiné e Costa do Marfim, brindaram o público com uma mistura instrumental de fusão, dançável, guiada pelos sons melódicos da kora e do ngoni e pelas percussões.

PapaNJam

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