Festival Músicas do Mundo - reportagem 6ª feira, 25.07

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Festival Músicas do Mundo - reportagem 6ª feira, 25.07

Mensagem  PapaNJam em Dom Jul 27, 2008 1:37 am


De canções de embalar aos delirantes cantos qâwwali, com passagem pelo rock e punk, o penúltimo dia do FMM mostrou receitas world music que são reinvenções permanentes.

A pergunta é simples: como é que cabe tanta música numa só noite, mais os milhares que fazem de cada diferença motivo de celebração? Nas ruas de Sines, onde se adormece madrugada dentro ao som de nómadas desconhecidos, violas e pandeiretas trazidos de algum lugar às costas, não é difícil encontrar uma resposta: a world music faz-se de exportações, importações e reinvenções sem limites.

A vila enche a partir do final da tarde, é véspera de fim-de-semana e o tempo puxa à praia. Os da terra fazem os primeiros balanços, falam dos cheiros "adocicados" e dos cães trazidos pelos viajantes, das roupas ditas hippies que já são um negócio como outro qualquer e, por fim, a música que não tem deixado dormir nem ver a novela a quem viva perto do centro.

Ainda assim, às 19h30 são poucas as pessoas à espera do primeiro concerto. Virão depois quando Rachel Unthank & The Winterset , quarteto mágico vindo da Nortúmbria, reino medieval no norte de Inglaterra, que é como quem diz Newcastle e o seu tempo cinzento e frio, se revelarem dignas das críticas internacionais que as têm descrito como sublimes.


Rachel Unthank & The Winterset trouxeram a Sines magia do Norte de Inglaterra

Juntas desde 2004, as irmãs Becky e Rachel Unthank, deliciosa pronúncia escocesa, a primeira de voz rouca e arrastada e a segunda de voz clara, acompanhadas por Niopha Keegam e Steff Conner, capazes de fazer chorar as cordas do violoncelo, violino e do piano de cauda e roubar o folk ao acordeão, contam estórias de vida seculares, de partidas e dificuldades enganadas a amor e bebedeiras nas tabernas, temas tão genuínos quanto a forma como nos são entregues.

Do álbum The Bairns , editado em 2007, cantam "I Wish, "My Lad's a Canny Lad", "My Donald", "Ma Boony Lad", "Newcastle Lullaby" e "Blue Bleezing Blind Drunk", o que significa "mesmo, mesmo bêbado", brincam com a audiência, registo tão próximo que permite pequenas conversas: porque é que cantam, as influências da música tradicional inglesa e das cantigas de embalar aprendidas na escola.

À vontade "a capella" e em cânones e com tempo para uma divertida incursão pela cloak dance, puro folk num chão amplificado, um sapateado descontraído de vestido nas mãos, botins especiais e mais tarde (reinvenção) saltos altos, o quarteto feminino na casa dos 20 deu um concerto enternecedor, com passagens suaves entre o tétrico, elogio seja feito ao piano tocado corda a corda, e o melodioso conjunto das vozes.

Pelas 21h30 é tempo de assalto ao castelo, ontem quase na lotação máxima, 6 mil ingressos vendidos, primeiro recorde para esta décima edição do FMM, e outros milhares na parte de fora. Faiz Ali Faiz cantor sufista paquistanês trouxe a Sines o lado místico do qâwwali, oração islâmica delirante e ritmada, caminho para o mais elevado êxtase.


Faiz Ali Faiz, o sufista do Paquistão, partilhou orações delirantes


Sentados em palco, com túnicas vermelhas e riscas douradas, Faiz, com um alcance vocal avassalador, dirigiu durante mais de uma hora o que terão sido quatro temas intensos de louvor, com repetições de palavras, sílaba a sílaba, e variações de voz num diálogo corporal compenetrado e hipnotizante.

Na arena, o público talvez dançasse alheio ao sentido mas sentia-se o poder transformador da espiral de som alimentada a cores fortes, palmas, harmónio e percussão.

Com nuvens alaranjadas a correr no céu e um jogo de luzes quentes, o grupo meditou em busca do estado de graça, demonstração que nos dá a vislumbrar as raízes milenares da música no mundo, o princípio de tudo o resto.

O palco é cedido aos KTU , sem que nada nos prepare para a perturbação que é deixar a harmonia do qâwwali e ser bombardeado pelo acordeão guerreiro, precursor do folk progressivo. O grupo descende dos lendários King Crimson, pela mão do guitarrista e baterista, Trey Gunn e Pat Mastelotto, mas é liderado por Kimmo Pohjonen, figura selvagem, a cabeça da destruição, ar ameaçador, descrito em tempos como o Jimi Hendrix finlandês do acordeão.


Kimmo Pohjonen, o "Jimi Hendrix do acordeão"


Depois de uma actuação no FMM em 2005, em que surpreenderam pelo rock experimental, a actuação de ontem levou-os para um ambiente mais violento, sons guturais sintetizados, riffs na guitarra Warr (10 cordas e o alcance de um piano), e uma variação acelerada de ritmos na bateria, a tecnologia dos samples numa revolução industrial de luz e som.

No encore de um alinhamento que introduziu os temas de 8 Armed Monkey , editado em 2005, Pohjonen jogou com o seu próprio conceito, num sarcasmo penetrante, tocando o acordeão a jeito de salão de baile (como se pudesse haver baile no fim do mundo) para no fim rebentar com tudo.

Os KTU musicaram o fim do mundo




Segue-se o pai do rock chinês. Depois de dois picos tão altos no recinto, a estreia de Cui Jian em solo nacional valeu-lhe nota intermédia.

Num registo sem muitas surpresas - ressalva para os apontamentos de trompete - com um primário jogo de rock e rap, bateria e guitarras demasiado amplificadas e reptos comerciais, com pena para o uso regrado de algumas sonoridades asiáticas presentes em palco, flauta e tambores, algumas pessoas baixaram mais cedo à praia, ignorando a emblemática carreira de 28 anos, símbolo da juventude no massacre de Tiananmen, em 89, com o tema "Nothing to My Name" e começada era o rock mais um entre os tabus da China.


Cui Jian é apresentado como o pai do rock chinês


À tarde, num encontro com o público, Cui Jian explicara que o conceito do rock chinês bebe a maioria das suas influências no ocidente, do mais mainstream às bandas de garagem, com letras que usam a poesia para falar de sentimentos.

Apesar de ter dito que não ia tocar de olhos vendados, gesto que fez com que a polícia chinesa lhe cancelasse uma digressão nos anos 90, e face talvez à insistência no assunto no auditório do Centro de Artes, Cui Jian trocou as voltas ao alinhamento e lá incluiu "A Piece of Red Cloth", de faixa vermelha na cara, ficando o momento mais emotivo da noite carregado por uma letra que fala de alguém amordaçado a quem é dito o que é a felicidade, sem nunca a ver.


De olhos vendados, num gesto de significado político


Na conversa repetiu que a mensagem do tema não é originalmente política, como não o é nenhuma das suas músicas (95 por cento sobreviveu à censura). Custa a crer quando antes deste se ouviram temas como "Balls Under The Red Flag".

A resposta dá-no-la com uma teoria: a política é como um barco que navega na cultura, sujeito às suas oscilações, logo a modernização, também pela música, terá os seus efeitos na sociedade.

2h15: A Av. Vasco da Gama enche-se de gente. O bulício de vendedores ambulantes, partidas, chegadas e encontros, em várias línguas, vai criando ambiente para o cantil dançável Firewater , 11 anos de carreira de um segredo bem guardado: quando não se está bem, há que ir à procura.

O carismático Tod Ashley, voz rouca e arranhada, improvável de passar a primeira fase de qualquer casting musical, contudo quente e absorvente, foi à procura da vida indigente do Médio Oriente para regressar com uma fusão de punk com música cigana, guitarradas envolvidas pelo som arrastado de um trombone de varas e um ritmo circense.

A banda com uma formação multi-cultural, Israel (uma mãozinha do guitarrista dos Boom Pam que tocam esta noite), Estados Unidos e França apresentou o novo álbum Golden Hour , editado em Abril. Misto indie e punk, mistura que inspirou nomes como Gogol Bordello, transformou a marginal num gigante acampamento colorido, luz e festa sem limites.

Seguir-se-ia um ambiente disco ao som das remisturas dos Nortec Collective , receita dita nortec, música mexicana electrónica com acordeão, trompete e tuba. Bostich e Fussible, dois dos produtores, trouxeram à marginal de Sines o calor latino das Tijuanas Sessions , compilações aclamadas internacionalmente, exemplo último ontem à noite, de como as fórmulas antigas a que não se tem medo de mudar temperos também podem saber bem.

PapaNJam

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