Paredes de Coura: terceiro dia

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Paredes de Coura: terceiro dia

Mensagem  PapaNJam em Seg Ago 04, 2008 12:35 am

dEUS, Wraygunn e Mars Volta concentraram atenções no terceiro dia do festival. Saiba como correram os concertos.

Já mexe o terceiro dia de Paredes de Coura.

Depois de um belo concerto de Sean Riley and the Slowriders no palco secundário, os italianos Spiritual Front abrem de forma trepidante, e com sabor sulista, o palco principal.


20h20 - Simone "Hellvis" Salvatori, vocalista dos italianos Spiritual Front , atira-se para o chão e degladia-se com a guitarra, como se a força da própria música o esmagasse.

No público, o entusiasmo com a "pop suicida niilista" dos Spiritual Front (a definição é deles!) não era tão avassalador como o do cantor, mas na despedida a banda de Roma ainda arrancou à plateia alguns aplausos de simpatia.

Vestidos a rigor - camisas negras e gravatas brancas, naquilo a que alguém chamou um look "de cangalheiro" - os Spiritual Front revisitam as trevas conforme vistas pelo rock sulista americano, versão gótica, mas com algum simpático balanço, cortesia do uso criativo da percussão e do som do piano eléctrico.
Com um timbre aparentado do de Nick Cave, Simone Salvatori tentou cativar o público, ainda muito preguiçoso, com histórias sobre o seu malogrado avô ("Song For The Old Man") e a inclusão da palavra "Portugal" na letra de "Jesus Died In Las Vegas".

Os truques não impressionaram por aí além a plateia de fim de tarde, mas a postura aguerrida, à pistoleiro, dos Spiritual Front deixou boa impressão em Paredes de Coura.

Os portugueses Sean Riley and the Slowriders habitam o mesmo espaço mental que os Spiritual Front: uma América mais ou menos selvagem e sanguinolenta. Mas se os italianos se imaginam num western com música dos Bad Seeds, a banda de Coimbra cairia que nem ginjas num "roadie movie" sobre aventuras amorosas e descobertas pessoais.

Em disco, o trio liderado por Afonso Rodrigues (sem exagero, uma das vozes mais bonitas de Portugal) é mais dado à pop-folk, mas em concerto arreganha os dentes e até faz uma versão de "Stack Shot Billy", dos americanos Black Keys.

O público, abrigado na sombra do palco secundário, acolhe com entusiasmo esta postura viçosa da banda de Farewell e parece unânime na estima pelo primeiro, e único, álbum da banda.

"Harry Rivers", apresentado por Afonso Rodrigues como o mais recente single da banda, é recebido com entusiasmo e com justiça - é uma belíssima canção, com a melódica de Bruno Simões a sublinhar a inspirada melodia.

Depois de uma pandeireta voar logo na primeira música, também os óculos de sol de Afonso Rodrigues foram parar ao chão. Não sabemos se foi só entusiasmo ou se houve alguma frustração, por parte da banda, por estarem a tocar, nas suas palavras, "à hora do pequeno-almoço".

A verdade é que Afonso Rodrigues, Bruno Simões e Filipe Costa podiam perfeitamente actuar à hora do almoço, ou até do lanche, sem perigo de congestões em Paredes de Coura.

21h00 - Os franceses Teenagers socorrem-se de uma fã recrutada nas primeiras filas para emprestarem à última canção do seu concerto, "Graduation", um colorido especial.
O vocalista Quentin Delafon bem se esforçou, descendo ao fosso dos fotógrafos para procurar umas quantas raparigas, ou "cheerleaders", como lhes chamou, para subirem ao palco. Mas a indiferença com que o concerto foi recebido - mais uma vez, à excepção dos indefectíveis junto às grades - fez com que só uma menina aceitasse o repto e dançasse descontroladamente durante "Graduation".

Foi provavelmente o único momento memorável de um concerto tépido; os Teenagers fiam-se no estilo (vocalista com t-shirt de Sonic Youth, guitarrista de vestidinho vermelho) e nas letras espirituosas para aproveitarem a moda das bandas descartáveis e vaporosas (ver Cansei de Ser Sexy).

Mas o resultado está muito aquém do da banda de Lovefoxxx. Aqui, faltam melodias de que nos lembremos 10 minutos mais tarde, falta verdadeiro sentido de humor e falta algo que distinga os Teenagers de dezenas de outras bandas indie-pop com guitarras eléctricas e sintetizadores. Os Loto, de Alcobaça, fazem canções bem acima de "Sunset Beach", por exemplo.

Paredes de Coura prepara-se agora para receber os Mars Volta . O recinto apresenta-se composto mas muito longe das enchentes dos dois primeiros dias.

23h00 - O concerto de Mars Volta chega ao fim, envolvido em algum mistério.

Os norte-americanos começaram por surpreender ao pedirem para tocar à hora dos Wraygunn, inesperadamente "promovidos", dessa forma, a cabeças de cartaz desta noite.

A banda alegou precisar de tempo para desmontar e transportar o palco, mas entre os fãs havia quem garantisse que o vocalista Cedric Bixler-Zavala não se encontrava nas melhores condições vocais e quis resguardar-se, actuando mais cedo.

Depois houve a ordem dada aos fotógrafos, e às equipas de filmagem, para que não captassem qualquer imagem do grupo.
Foi envoltos nesta aura vagamente misteriosa que os Mars Volta aterraram no palco principal de Paredes de Coura, pela hora do jantar. A introdução do concerto fez-se ao som de uma música mariachi - delicadeza que Cedric Bixler-Zavala, Omar Rodríguez-López e comparsas fizeram questão de estilhaçar, mal entraram em palco munidos de artilharia pesada: guitarras eléctricas, duas baterias com som de trovão, dois teclados e também um saxofone.

O som que esta gente toda junta produz assemelha-se a um furacão - e na frente do palco, o furacão é conduzido por Cedric Bixler-Zavala, voz de Robert Plant e cabelo de Jimmy Page, a vibrar o mais que é humanamente possível com a própria música.

Cedric atira-se para o chão repentinamente, para se levantar dois segundos depois, qual homem-elástico; enreda-se no microfone e chega a morder o seu fio; "copula" com o palco de uma forma que chega a constranger quem não é admirador condicional da banda.

Nas primeiras filas, e como vem sendo habitual, ninguém arreda pé e as "jams" dos Mars Volta, a levar algumas das músicas para além dos dez minutos, fascinam mais do que repelem. Mas junto dos "civis", a debandada começa a dar-se, com muitos espectadores a trocarem a versão XXL de "Viscera Eyes", por exemplo, pelas banquinhas de comes e bebes.

Quem também passa por nós nesta altura é Tom Barman, dos dEUS, imediatamente reconhecido por uma fã exaltada que o persegue e só pára quando consegue cumprimentar o seu estiloso ídolo.

"The Widow", com a sua estrutura mais convencional, consegue despertar alguns não-fãs para o concerto dos Mars Volta mas, no geral, os longos solos e a experimentação a raiar o free-jazz fizeram desta actuação um espectáculo demasiado hermético para poder ser apreciado pela generosa massa de pessoas que se encontrava no recinto - à hora do jantar.

01h00 - Custou mas foi. À custa de uma massagem cardíaca aplicada pelos dEUS , Paredes de Coura parece ter recuperado, do lado do público, algum do calor humano que tem caracterizado edições anteriores.
Não sabemos se os espectadores deste ano são demasiado novos para se deixarem entusiasmar com bandas de "meia idade" como os Primal Scream, ontem à noite, ou demasiado velhos para saltarem e celebrarem concertos enérgicos como os de dEUS, hoje. Tememos que a muitos custe perder a pose e o penteado aparentemente descuidado que tanto trabalho lhes deu a pôr de pé.

Tom Barman é que não foi nessas conversas e só descansou quando viu toda a gente - ou quase - a abanar a anca, nas suas próprias palavras.

Para o conseguir, teve de ir buscar os clássicos de dEUS ao baú - se a maravilhosa "Instant Street" foi servida logo nos primeiros minutos perante uma plateia ainda fria, "Suds and Sodas" revelou-se um momento milagroso de barulho e comunhão, dando um novo alento ao final do espectáculo.

É pena que a plateia pareça não conhecer o mais recente Vantage Point , pois é nele que se encontram óptimas músicas tocadas pelos dEUS esta noite: a lânguida "Slow", logo a abrir, a funky "The Architect" ou "Smokers Reflect", uma das canções mais bonitas do ano, aqui guarnecida com teclas e tudo.

Mas Tom Barman, dizíamos, não desarmou perante a apatia inicial do público e, com muito esforço e muito estilo, arrancou a ferros da plateia de Paredes de Coura as maiores ovações do festival, até ao momento.
Muito já foi dito sobre a relação dos dEUS com o nosso país e as repetidas vindas da banda a Portugal; o que também é verdade mas é escrito menos vezes é que Tom Barman é um homem muito bem parecido e que isso não é nada desagradável, na hora de ver transpostas para palco canções com tanta líbido como "Favourite Game", do novo Vantage Point .

Mas não batamos mais no ceguinho: foi com os velhos êxitos dos dEUS - "Nothing Really Ends", romantiquíssima; "Serpentine" e "Roses", já no encore - que Paredes de Coura voltou a mostrar ter sangue na guelra. E nem que fosse só por isso, impunha-se um agradecimento aos dEUS.

Até Outubro, Porto e Lisboa terão oportunidade de descobrir novas e excitantes músicas dos dEUS, como "Oh Your God" ou "Is a Robot", e cantá-las também nos concertos que a banda prometeu dar nesse mês, nas duas maiores cidades do país.

2h40 - Os Wraygunn encerram o palco principal no meio de relativo, e bem-vindo, caos.

A banda de Paulo Furtado viu-se "projectada" para a posição de cabeça de cartaz desta noite, graças ao pedido de troca dos Mars Volta. E a certa altura chegámos a temer que os Wraygunn, uma das bandas portuguesas com mais rodagem e "calo" de palco, não estivessem à altura da inesperada honra.

Tudo porque, nos primeiros temas da noite, Paulo Furtado mal se ouviu. Ou seja, ouvia-se a sua guitarra eléctrica, ouviam-se as vozes, imperiais, de Raquel Ralha e Selma Uamusse, ouvia-se a banda em plena carburação. Mas a voz de comando dos Wraygunn parecia apagada, deixando o protagonismo para as companheiras de ofício (sensualíssimas e impecáveis em canções como "Love Is My New Drug", "Work Me Out" ou "Everything Is Gonna Be OK").
Feminino e insinuante, o concerto decorria assim em lume brando, ou pelo menos aquém do que já víramos os Wraygunn fazer. Foi com "Drunk or Stoned" que Paulo Furtado pareceu "despertar" para o seu papel de vocalista e agitador-mor; em "All Night Long", era já o Sr. Wraygunn que conhecemos e amamos que se empoleirava em cima das grades berrando ao público: "Mostrem-me o vosso amor!".

Durante alguns minutos Paulo Furtado viajou por cima das cabeças dos presentes, ameaçou de morte um espectador que lhe tentou roubar um sapato e perdeu os óculos de sol. Ao fundo, uma bandeira da Académica servia de cenário a esta "ressurreição", bem a tempo de deixar nos presentes uma melhor impressão do concerto.

O sucesso desta excursão pelo público daria origem a um encore sucinto mas apetitoso, com uma frenética versão de "You Really Got Me", dos Kinks, e uma canção "sobre fluidos, um punk-rock adequado à sua época", nas palavras de Paulo Furtado. Foi então com "Juice", do álbum Eclesiastes 1.11 , que os Wraygunn selaram a sua primeira experiência como cabeças de cartaz do festival Paredes de Coura

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