Jazz em Agosto: John Zorn e Fred Frith

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Jazz em Agosto: John Zorn e Fred Frith

Mensagem  PapaNJam em Seg Ago 04, 2008 11:04 pm

Bastou uma hora e pouco de concerto para que, ontem à noite, o esgotado anfiteatro da Gulbenkian se levantasse para aplaudir dois músicos de excepção - John Zorn e Fred Frith.

Seria difícil estes dois intérpretes de música sem amarras, e exploradores natos em diversos estilos musicais, defraudarem as expectativas de qualquer adepto de música improvisada. Tocam juntos há mais de 25 anos, sendo Zorn um dos músicos mais transversais e completos das últimas três décadas.

De formação clássica, tem provas dadas em diversos géneros, como o jazz, rock, hardcore, klezmer, música para cinema, teatro e animação. Simultaneamente, é um dos maiores representantes e impulsionadores da cena avant-garde da downtown de Nova Iorque, através do seu clube Tonic ou da Knitting Factory. Com um selo experimental, é através da sua prolífica editora Tzadik que edita projectos e colaborações espalhados pelos quatro continentes, evidenciando as suas origens judaicas e reinterpretando a riqueza da música klezmer.

No esgotado auditório de ontem, não estavam só adeptos de jazz e suas extensões. Zorn gerou no início da década de 90 um autêntico fenómeno de culto ao criar os Naked City, banda de rock experimental que misturava surf-rock, hardcore e lounge jazz. O ainda mais radical projecto Pain killer, com Bill Laswell e Mick Harris (baterista dos Napalm Death) onde grindcore e o jazz coabitavam, esteve na génese de bandas como os Mr. Bungle, Fantômas e Secret Chiefs.

Nos últimos anos vimo-lo em Portugal com a sua banda de música klezmer, os Masada, e mais recentemente os Electric Masada, bem como com o projecto Moonchild, com Mike Patton, Trevor Dunn e Joey Baron.

Zorn não é só um excelente executante e compositor como também trabalha com a "nata" da improvisação pelo mundo fora: Bill Frisell, George Lewis, Wayne Horvitz, Dave Douglas, Mark Ribot, Zeena Parkins ou Anthony Coleman são só alguns.

Em 2003, ano em que celebrou o 50º aniversário, gravou uma série de concertos no seu clube Tonic, com os mais variados projectos e músicos que conheceu ao longo dos anos, e editou alguns em disco. 50th Birthday, Vol. 5 é assim o registo de uma série de noites de livre improvisação do dueto Zorn e Frith.



O concerto começa a todo o gás, com Zorn a oscilar entre estilos, a uma velocidade estonteante, e Frith de pés descalços sobre os pedais da guitarra, acompanha-o transformando a guitarra num instrumento de percussão, com um som muito grave mas sempre dinâmico. O segundo tema foi simplesmente genial.

O dueto toca uma melodia klezmer ululante, com Zorn a utilizar a surpreendente técnica da respiração circular, sustendo a melodia ininterrupta durante uns 12 minutos, qual loop encantador de serpentes, enquanto Frith improvisa por cima com uma elegância e acutilância irrepreensíveis. Tem uma mesa de apoio com todo o tipo de objectos: ímanes, pincéis, paus, escovas, elásticos, etc. Grava um batucar na guitarra, põe-o em loop, sem parar de tocar. Cria ambientes incríveis, uma só guitarra pode substituir uns três músicos nas mãos certas. É o caso. Por vezes parece um xilofone amplificado e distorcido com pedal - enquanto toca, desafina as cordas. É abrasivo e inventivo sem entrar na recorrente distorção sónica de esticar as cordas e efeitos de pedal.

É muito raro ver um músico com a parafernália de objectos ao lado de uma guitarra eléctrica e vários pedais que não resvale para o "folclore" sonoro, tenha a dose de contenção certa para que o resultado seja explosivo sem ser cansativo. Quarenta anos a tocar guitarra e a evoluir, Zorn, o speedfreak corre e Frith segue-o agora com o auxílio de um arco e pedal de distorção que arranham nos agudos.

Zumbidos, guinchos, assobios, grunhidos! Zorn saca todo o tipo de sons do seu saxonofe alto. Interagem na perfeição quando ambos embarcam nas gotículas de nota que se soltam dos instrumentos.

No encore, uma música mais calma com uma belíssima melodia, embala-nos até casa. Toda a gente de pé aplaude o fulgurante dueto e fica à espera de mais uma música. Eles voltam só para agradecer e aplaudir a assistência.

O Jazz em Agosto decorre até ao próximo Sábado, dia 9 de Agosto. A programação pode ser consultada em http://www.musica.gulbenkian.pt/jazz/index.html.pt .

PapaNJam

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