Indústria fonográfica: crise ou necessidade de transformação?-Capit.2

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Mensagem  PapaNJam em Sab Jul 05, 2008 12:37 pm

O preço, aos olhos dos consumidores, no entanto, tem sempre que ser o melhor, o mais confortável para os seus bolsos. E, sem dúvida, realmente é. Representa o que eles acham mais justo pagar, especialmente diante de uma realidade sufocante de preços altos e recessão como a que se vive na aldeia global – uma expressão, aliás, que é e sempre será a tradução dos neoliberalistas para a palavra “mundo”. O impasse ao qual me referi, portanto, tem a ver com preços e consumidores, e mercados-alvo, e tudo o mais que você puder imaginar em termos de consumo de comunicação, pois a comunicação se tornou realmente um admirável bem de consumo, sim, senhoras e senhores. E não adianta dizer que não, você aí sentado na poltrona de seu lar com Internet em alta velocidade via modem speedy e banda larga, e com o controle remoto de sua antena Sky nas mãos. Todos sabemos que sempre foi, mas convenhamos: apenas mais recentemente isso se tornou mais claro e evidente, à medida que as grandes tecnologias proliferaram nesse ramo.
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Só para citar uma das mídias da comunicação que mais fizeram dinheiro até hoje, e que agora sofre com a era do impasse: a televisão. Simplesmente o maior canal de TV do Brasil há muito tempo, a Rede Globo, atravessa neste exato momento um importante período de reestruturação de todas as suas políticas de programação, pois nunca mais atingiu os tão sonhados 100% de audiência ou quase dos longínquos anos 60, dos militares e dos milhares de brasileiros postados à frente das telas irradiando o “Jornal Nacional” e as novelas em preto-e-branco de Janete Clair em horário nobre, como Selva de Pedra, por exemplo. São tempos que se foram e não voltam mais, por mais que a experiência televisiva enverede por caminhos exóticos, como os reality shows e as cada vez mais freqüentes misturas interativas de dramaturgia e notícias em pseudo-jornalísticos e shows de auditório esquizofrênicos. A Rede Globo sofre, assim como todos os outros grandes canais abertos do mundo afora, combatendo um gigante chamado Internet, que lhe roubou grande parte de sua audiência. A enxurrada de informações, culturais ou não, que as infindáveis conexões à monstruosa rede propiciou, fomentando literaturas, cinematografia e manifestações artísticas e populares no mundo inteiro, desviou as atenções de milhões de olhos das telas de TV – pois a Web nada mais é, não nos esqueçamos deste dado importantíssimo, caros leitores, do que o mero ato de ler, seja com qualidade ou não, mas metamorfoseado, estilizado, transformado em algo que sincretiza, com adendos fantásticos, sons e imagens, uma evolução insuspeita da leitura. E, ironia das ironias, uma outra mídia está se divertindo com tal disputa: o cinema, que com o advento do pequeno e ignóbil aparelho de TV, sofreu da mesma forma uma perda de impacto diante das massas, tendo inclusive que, no final dos anos 50, para competir, inventar novas formas de filmagem e exibição em grandes salas para tentar manter o velho charme, agora se regozija com esta tão incauta vingança torta que a Internet (e outras mídias, através dela) promove. Tudo o que a TV fez ao clássico cinemão, que ia bem até ela surgir, nos idos de 1950, agora está sendo pago, talvez em dobro até, à caótica rede mundial de computadores. Apenas os canais de TV pagos não estão à mercê desta ameaça literalmente virtual – por vários motivos que não cabe discutir aqui e agora, sendo um deles, por exemplo, o simples fato de que simplesmente pegaram, evidentemente transcodificada para a sua realidade, muito da linguagem dinâmica da Internet.
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Mas sendo a televisão um dos monstros da comunicação que sofre com essa nova era que chegou, e que hoje mendiga um, dois, ou míseros cinco pontos no chamado Ibope para sobreviver, dependendo do horário, qual seria um dos outros? Bem, é aqui que a nossa conversa fica mais interessante, e adentra aspectos sobre os quais eu gostaria de discorrer um pouco para tentar mostrar-lhes como os tempos estão mudando, conforme o que Bob Dylan adorava cantar (the times they are-a-changin’). Eles realmente estão.Eu diria que a indústria fonográfica é um desses senhores certinhos de terno-gravata-e-maleta-na-mão que, depois de ser assaltado e passar o diabo nas mãos da nua e crua realidade das ruas e do povão, vai tentar voltar para casa em frangalhos... e totalmente transtornado, nunca mais com a mesma visão de antigamente. Isso, indubitavelmente, força o sujeito à revisão de uma série de valores em sua vida. Acho que é isso que ainda vai acontecer (a longo prazo, evidentemente) à indústria fonográfica. Senão, vejamos como toda a maré forte e tempestuosa subjugou este grande e velho Titanic exposto à arrebentação:
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Em meados dos anos 1980, mais precisamente entre 1983 e 1986, uma nova mídia sonora desenvolvida por japoneses e americanos, chamada compact disc, inicia a sua incessante escalada rumo à popularidade mundial. O conclamado “disco laser”, como era chamado, justamente pelo fato de ser reproduzido em aparelhos especiais através de um agulha ótica com o referido raio, representava a evolução tecnológica fonográfica em quase 90% dos casos, gerando, segundo os especialistas da época, uma alta fidelidade na reprodução de sons jamais experimentada ou ouvida por ouvidos humanos anteriormente. A pureza de som do tal “CD”, como logo começou a ser chamado, era realmente de espantar. Ainda me lembro de alguns anúncios de revistas especializadas, em 1987 ou 88, onde críticos atestavam quais os clássicos que haviam tido as suas melhores transcrições para CD na época. As obras sinfônicas foram os carros-chefe da produção mundial de CD’s durante o período de cinco anos que compreendeu o grande advento da nova mídia: sinfonias de Chopin, Mozart e Beethoven. Concertos conduzidos por Karajan, e outros grandes. “Carmina Burana”, de Orff, ou “O Anel dos Nibelungos” de Wagner, com a sua majestosa “Cavalgada das Valquírias”... as grandes óperas imortais... Tudo isso foi utilizado, em suntuosa escala, para ajudar a promover e dar impacto à nascente mídia do CD. Você poderia ouvir a orquestra tocar como se estivesse em sua sala! O mais tênue roçar do arco sobre um violino poderia se tornar perceptível em algum momento, bem como a respiração de uma soprano em uma passagem das mais emocionantes... maior fidelidade e perfeição sonoras, impossível. Hoje em dia, sabemos que novas mídias estão a disputar com o CD a condição de melhores (como o MD), deixando-o quase no chinelo, mas na época foi um admirável golpe de marketing. E, ainda que alguns dos primeiros CD’s produzidos decepcionassem (e muito!) aqueles que os compraram – por uma simples questão de despreparo tecnológico das fábricas de discos e de equipamentos, ou por uma extraordinária ilusão impossível de satisfazer criada pela publicidade -, a verdade lentamente se tornava uma só: o bom e velho LP, o long-play de vinil, estava com os seus dias contados.
O LP (long play): disco de vinilIndústria fonográfica: crise ou necessidade de transformação?-Capit.2 A_era_14
O engraçado é que, como sempre acontece na longa e sinuosa História em círculos da humanidade, todo progresso traz as suas desvantagens, e a indústria fonográfica provavelmente não se imaginava como Frankenstein criando um monstro que não pudesse controlar assim que apostou todas as suas fichas na criação e popularização dos CD’s. A partir do breve hiato de 1990 a 1991 – que marca a consolidação do comércio de CD’s em todo o mundo, e a morte comercial definitiva do LP, no consumo de massa - , em apenas cinco anos as grandes gravadoras do mundo inteiro estariam experimentando uma situação que se tornaria insuportável para todas elas, e tornada possível graças à rentável produção mundial de gravadores de CD, primeiro a partir do Japão e, consequentemente, por indústrias tecnológicas do resto do mundo: a pirataria.

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